O culto do Espírito Santo

15 05 2008

A Trindade num vitral da Igreja de Nª Srª de Fátima (Lisboa) por Almada Negreiros.

O Espírito Santo é representado pela pomba, entre o Cristo crucificado e o Pai com o rosto semi-oculto.

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Na cidade de Tomar em fins de oitocentos, a configuração da cerimónia dos festejos correspondia a um modelo temporal típico das festividades em honra do Divino Espírito Santo e desenrolavam-se por todo o período do Pentecostes. Estes festejos começavam no Domingo de Páscoa, altura em que saía o cortejo da casa do mordomo (actualmente saía da Santa Casa da Misericórdia), acompanhado por gaiteiros e tamborileiros, a que se seguia o “Pendão do Espírito Santo” empunhado pelo juiz e por um mordomo e dois festeiros que transportavam em salvas de prata as Coroas Cerimoniais, a seguir seguiam-se os restantes festeiros e o povo. Seguiam para a Igreja, onde depositavam as coroas na banqueta do altar até se finalizar a cerimónia religiosa. Seguidamente o cortejo regressava ao local de partida e nos Domingos a seguir este cortejo saía sempre à rua. Na sexta-feira antes do Pentecostes saía então à rua a grande Procissão em Honra do Divino Espírito Santo (actual Procissão dos Tabuleiros, hoje realizada ao Domingo).
Em todo o concelho de Tomar, nas várias aldeias, realizavam-se também festejos em honra do Divino Espírito Santo, como por exemplo: Paialvo, Carregueiros… O século XX, trouxe grandes modificações aos festejos em Tomar, como por exemplo a distribuição da Pêza (tanto o pão como a carne) passou a ser distribuído apenas pelos mais necessitados. Em 1950 dá-se uma grande transformação na ordenação dos festejos, visto que no Grande Cortejo da Festa dos Tabuleiros passaram a participar pessoas pertencentes ás diferentes freguesias do concelho de Tomar. O cortejo foi dividido em duas partes, o da “Coroas e dos Pendões” e o dos “Tabuleiros”, ambos realizados seguindo regras de cerimónia e a data de realização destes cortejos passou a ser em Junho.
Estes grandes Festejos alargam-se assim a todo o concelho englobando diversos espectáculos turístico-culturais.
Desde 1950 que muitas das motivações devocionais, têm vindo a ser substituídas por motivações funcionais de auto-estima comunitária, embora se façam esforços para manter esta tradição não perdendo os seus modelos tradicionais.

Existem documentos que relatam festividades do Divino Espírito Santo em Tomar desde o ano de 1844 (num livro de Actas e Contabilidade da Academia Philarmonica Thomarense). Só a partir de 1879 é que começam a aparecer as primeiras descrições impressas. As celebrações iniciavam-se tradicionalmente no Domingo de Páscoa, dia em que pela primeira vez saíam e ainda saem o Cortejo das Coroas, conduzidas por três mordomos. Antigamente o cortejo saía de casa do mordomo principal, só mais tarde quando se começou a guardar o Pendão e as Coroas na Santa Casa da Misericórdia é que o cortejo começou a sair desta.

A Festa dos Tabuleiros em Tomar realiza-se habitualmente de 4 em 4 anos no princípio do mês de Julho. A origem desta festa tradicional está no Culto ao Divino Espírito Santo, este culto foi instituído pela Rainha Santa Isabel. Na Festa dos Tabuleiros podem-se observar características das antigas festas das colheitas, quer seja pelo pão ou pelas espigas de trigo presentes nos Tabuleiros.
O ponto alto dos festejos é o Cortejo dos Tabuleiros, mas existem também outras atracções culturais e recreativas como o Cortejo dos Rapazes, o Cortejo do Mordomo, as ruas típicas ornamentadas, os Jogos Populares, os Cortejos Parciais, a Pêza…

Ler mais: http://www.i-tomar.info/c_cult_festa_tabesanto.php

Insígnia da Ordem de Cristo.

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Dom Dinis e o culto do Espírito Santo

O Culto do Espírito Santo foi introduzido em Portugal pela mão da “Rainha Santa”, Isabel de Aragão, esposa de Dom Dinis e através das suas relações com o místico aragonês Arnaldo de Vilanova e com as correntes menos ortodoxas do franciscanismo. É o mesmo rei português, Dom Dinis, que incentivava o culto do Espírito Santo, que recusa cumprir as ordens do Papa, verdadeiro lacaio do rei francês Filipe o Belo e rejeitando estabelecer uma perseguição e destruição sistemática da ordem templária. Este grito de revolta contra uma hegemonia castradora e imperialista das então superpotências papal e francesa, marcou decisivamente a independência portuguesa e criou as raízes para uma afirmação nacional que seria o fundamento para os Descobrimentos e para a Expansão com o papel dominante na Europa que Portugal haveria de ocupar entre 1500 e 1525, sempre sobre a batuta da Ordem de Cristo, forma transmutada da extinta Ordem Templária.

O apoio de Dom Dinis ao Culto do Espírito Santo nunca poderia ter frutificado como frutificou se não se desenvolvesse em terreno fértil… A população portuguesa mantinha ainda vivas as tradições pré-romanas de igualdade e fraternidade potenciadas por este Culto paraclético. O próprio “substrato de inquietação religiosa” que Paulo Borges reconhece na heresia lusitana e galega do Priscialinismo e que se exprimiria plenamente no Cancioneiro Galaico-Português e nas várias obras do Ciclo da Graal editadas entre nós durante o Renascimento e os Descobrimentos são expressões desse mesmo sentimento onde se desenvolveu o Culto do Espírito Santo. Este sentimento apelava à reunião do Homem com a Natureza, e diminuia o peso de uma “religião organizada”, tão romana e canónica, quanto informal e espontânea era a religiosidade profunda do português medievo. Este era o mesmo português que nos municípios assumia a liderança local, à propriedade comunitária e à instauração de uma rede de “repúblicas municipais” que floresceram particulamente bem durante o reinado de Dom Dinis.

http://movv.org/2007/09/01/dom-dinis-e-o-culto-do-espirito-santo/

Agostinho da Silva: “É o Império do Espírito Santo entre os homens”

É o Império do Espírito Santo entre os homens. É não perder nenhuma das características de ser homem e ganhar todas as que se atribuem a Deus. Porque os homens ali, como se vê pelo seu comportamento com as ninfas (Agostinho refere-se aqui ao episódio da “Ilha dos Amores” de Camões), são plenamente homens, comem e bebem no banquete, mas depois estão fora do Tempo e fora do Espaço, como está Deus.”Agostinho da Silva: Ir à Índia sem Abandonar Portugal; Considerações; Outros Textos

O Império do Espírito Santo é aqui um sinónimo de “Quinto Império”. Esta será o Reino da Transcendência, onde o Homem se ultrapassa a si mesmo e deixa de ser Homem. Para Agostinho, a verdadeira função do Homem, o seu vero destino é deixar de o ser, e ultrapassando-se, divinizar-se tornar-se Sobre Humano. O Homem pleno, cumpridor de todas as promessas de fraternidade e universalismo antevistas pelos visionários do Quinto Império, desde Vieira a Pessoa, passando por Bandarra é o Sobre Humano de Agostinho, o Homem do Império do Espírito Santo e contemporâneo e fundador do Quinto Império.

http://movv.org/2006/03/04/agostinho-da-silva-e-o-imperio-do-espirito-santo-entre-os-homens/

Em relação à Procissão do Corpus Christi (Séc. XIII e XIV), já em 1282 o rei D. Dinis ordenou que a Festa do Corpo de Deus fosse celebrada com o mesmo ritual da do Espírito Santo, em Alenquer (1265).

http://www.rtam.pt/index.php?id_categoria=3&pos=256&palavra_chave=&data1=&data2=

As festas do Império do Divino Espírito Santo em Alenquer, Portugal

Foi no tempo da Rainha Santa Isabel, quando esta esteve com residência fixa em Alenquer, que surgiram as primeiras Festas do Espírito Santo. Influenciada pelo espírito da comunidade franciscana existente em Alenquer, a Rainha Santa funda as Festas não apenas para prestar culto à terceira pessoa da Santíssima Trindade mas também para, por meio delas, assistir aos mais pobres, cujas necessidades estavam sempre presentes em seu coração.De Alenquer, o culto e as Festas irradiaram para onde quer que existisse uma comunidade de portugueses, subsistindo ainda hoje em todas as ilhas dos Açores, na Madeira, no Brasil, nos Estados Unidos da América, no Canadá, no Hawai, nas ilhas de São Tomé e Príncipe, e até mesmo no Oriente, como em Margão, na Índia, para além de outros lugares de Portugal Continental, com destaque para o Penedo, em Sintra, ou para as célebres Festas dos Tabuleiros, em Tomar.

Com o passar dos anos, as Festas do Espírito Santo de Alenquer foram decaindo, até que, depois de um período de realização intermitente, aconteceram pela última vez em 1945.

Em 2007, por influência que já vinha de há algum tempo atrás do então Bispo Auxiliar de Lisboa, e actual Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, Alenquer retomou essas seculares festividades em honra do Espírito Santo. Porém, não se quis simplesmente recuperar e reconstituir historicamente as Festas do passado. Pretendeu-se captar o sentido de então, para lhe dar uma adequada concretização no presente, fazendo das actuais Festas do Império do Divino Espírito Santo de Alenquer um acontecimento aglutinador, capaz de congregar as mais diversas forças vivas do concelho, celebrando tudo aquilo que se faz em prol do bem comum e da dignificação humana, nas artes ou na cultura, no desporto ou no lazer, sob o lema “O Espírito sopra onde quer!”.

Nesta perspectiva, as renovadas Festas do Espírito Santo assentam sobretudo em três grandes pilares.

Festas Pascais

Em primeiro lugar elas são eminentemente Festas Pascais e, nesse sentido, não se reduzem ao dia de Pentecostes, embora tenham aí o seu cume, nem se esgotam num único fim-de-semana. Preenchem todo o Tempo Pascal, qual «grande Domingo» como nos ensina Santo Atanásio. Inaugurando-se no próprio Domingo da Ressurreição, as Festas marcam presença, sobretudo com eventos de carácter cultural, em todos os demais Domingos da Páscoa. Assim como na Quaresma as procissões dos Passos ou do Enterro, as Vias-Sacras e tantas outras devoções, valorizam e procuram dar sentido a esse tempo litúrgico, assim as Festas do Espírito Santo pretendem preencher o Tempo Pascal com a alegria, o espírito e os sentimentos próprios desse Tempo e, no caso, extravasando até a própria comunidade cristã.

Solidariedade e acção do Espírito

Em segundo lugar, as Festas do Espírito Santo procuram valorizar tudo aquilo que de bom se faz no concelho de Alenquer, contrapondo a uma visão pessimista e derrotista do tempo presente a esperança cristã num mundo melhor que pode ser construído a partir da solidariedade entre os homens de boa vontade, se estes se deixarem conduzir – mesmo que inconscientemente – pela força renovadora e recriadora do Espírito Santo, o qual “sopra onde quer!”. E, assim, um dos momentos altos das Festas ocorre no sábado, véspera do Pentecostes, quando, na chamada “Festa da Solidariedade”, as dezasseis freguesias do concelho transformam em espectáculo uma autêntica mostra viva do bem-fazer que colectividades, associações, instituições, grupos, e até pessoas individuais, desenvolvem nas suas terras em prol da comunidade local.

As procissões e o bodo

O terceiro grande pilar das renovadas Festas do Espírito Santo são as procissões e o bodo. Na véspera do Pentecostes, a Procissão da Luz ilumina a noite alenquerense, enchendo de beleza as pitorescas ruelas da vila – expressão, afinal, da luz e da beleza do Espírito – e culminando com a celebração da Vigília de Pentecostes. No Domingo de Pentecostes, à Missa segue-se a tradicional Procissão do Espírito Santo que, desembocando justamente no Largo do Espírito Santo, aí termina com o grande Bodo. No passado era o bodo oferecido aos pobres. Hoje é o bodo oferecido à população inteira e, bem assim, aos forasteiros, suscitando o convívio fraterno próprio de uma refeição, capaz de superar as diferenças de raças, de convicções políticas, de condições sociais, de níveis culturais, e mesmo de credos religiosos, transformando as diferenças em riqueza de diversidade e abrindo o coração ao trabalhar do Espírito Santo. Porque, afinal, “O Espírito sopra onde quer!”.

Duarte João Ayres d’Oliveira

http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=59711

Um império (edifício) do Espírito Santo.

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Sobre a permanência do culto do Espírito Santo nos Açores

Após a introdução do culto do Espírito Santo nos Açores, sob a forma de Império, em finais do século XV, as razões para a sua permanência devem-se ao facto destas festas serem as que melhor permitiram o entendimento entre os diversos povoadores e se enquadram num espírito de solidariedade necessário na luta contra as dificuldades; pela simplicidade do elemento material necessário; pelo peso da hierarquia não ser tão forte nas repressões devido ao papel evangelizador dos franciscanos e à incorporação destes valores pelo clero local; pela resistência à dominação política filipina, na afirmação das tradições locais; pela construção de pequenos edifícios para impérios e pelo apoio da emigração açoriana.A decadência do culto, a que actualmente se assiste, deve-se à passagem de uma cultura agrária a uma cultura urbana feita de serviços e de consumo, e porque as formas de solidariedade vão-se transferindo das famílias e vizinhança para a responsabilidade estatal, à medida que crescem sentimentos e práticas individualistas e se debilita (ou depura) a fé.

Tal como na Escritura, também no culto popular do Espírito Santo, há uma iconografia própria. Como símbolos, destaca-se a coroa, o ceptro, o bastão, a bandeira, o império (edifício) e o menino (inocência), que têm a ver com o exercício da soberania e a garantia da justiça, atribuídas ao Espírito Santo.

Os milagres atribuídos ao Divino Paráclito querem mostrar que o Espírito Santo quer ser adorado com a «festa do Império», pela razão de nela se incluir o jantar aos pobres. À estranha pergunta «porque é que o Espírito Santo é vingativo?», devemos responder com a leitura dos milagres que Lhe são atribuídos e com o não cumprimento dos rituais do Império, pois o que a Deus e aos pobres se deve e promete não se Lhes deve regatear.

No pronunciamento dos bispos ao serviço dos Açores, nesta matéria, podemos marcar quatro períodos com os seus estilos próprios. No primeiro (séc. XVI), ténue e tolerante, temos reparos para que não se exagere nos gastos, evitem as superstições, não se faça as festas fora do tempo próprio, que haja apenas um imperador em cada lugar, bem como advertências quanto ao tempo e ao comportamento na igreja dos fiéis envolvidos nos rituais.

A reforma tridentina (séc. XVII e XVIII) far-se-á sentir com toda a sua pujança implicando sobretudo com as cantigas e danças dos foliões nas igrejas, proibindo a própria confraria de ter gastos com os jantares, os ministros eclesiásticos irem a casa dos imperadores assisti-los, comer nos templos, coroar antes de acabar a missa, impérios de mulheres, bailes e jogos ilícitos, existência de mais de um império em cada dia e localidade, o ministro dar a beijar os evangelhos e a paz ao imperador, aos homens estar na igreja com a cabeça coberta e as mulheres não, etc. Este é o tom das reprovações.

A partir do século XIX, fala-se em geral de «abusos, excessos e pecados que se cometem a pretexto de festejar o Espírito Santo». Proíbe-se que saiam imagens dos santos a acompanhar o cortejo das coroações, a intromissão dos párocos nos negócios temporais das irmandades, a bênção de coroas que não sejam de prata, que se ande com a mesma a fazer peditórios pela rua, impérios dirigidos por crianças, coroações em casa, mudanças de coroa à noite ou que se coma no próprio império.

No século XX, estando o culto aceite, as observações são de carácter disciplinar e administrativo, atingindo o pico crítico nos anos 60, mudando para um tom positivo e pastoral com o actual bispo, no final do século. Concluímos que há certas repressões, proibições, advertências, ameaças, mas não quanto à essência do culto e, sobretudo há persistência e resistência populares. Não raros aparecem, antes das correcções, elogios ao fundamento e razão de ser de um culto tão genuinamente cristão. Não há intervenções doutrinais de fundo, que levem a proibir esta prática. O culto popular nasce em ambiente cristão, tem ideias cristãs e é realizado por comunidades cristãs, com uma roupagem cultural e social sob a qual se esconde uma atitude básica de fé no Espírito Santo – alma e motor da Igreja.

Pe. Hélder Fonseca Mendes, Vigário Geral da Diocese de Angra

http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=59708

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Impérios e Espírito Santo

O estudo histórico, teológico e eclesial dos Impérios do Espírito Santo, nos povos cristãos católicos dos Açores é, realmente, interessante e, até certo ponto, único. À luz da história, tudo começa com o monge Joaquim de Fiora e a sua doutrina sobre as três idades da Igreja: a idade do Antigo Testamento, com um Deus juiz, mandão, guerreiro, a impor o “genocídio” (herem, no hebraico) contra todos os inimigos pagãos de Israel; a segunda idade, a de Jesus Cristo, cuja doutrina evangélica fora adulterada pela Igreja; a terceira idade, a do Espírito Santo, a criar no seio da Igreja, vivida e administrada por monges e virgens. Segundo Joaquim de Fiora, as duas primeiras idades estavam ultrapassadas e a terceira surgiria brevemente. Havia que lutar por ela. Nessa Idade Média, – a do feudalismo – havia vários movimentos, fundamentados no evangelho, contra a Igreja Católica do tempo – cátaros, albigenses, etc. Ao espírito desses movimentos juntou-se também um grupo de franciscanos, que faziam de Francisco de Assis, pobre e humilde, um segundo Jesus Cristo. Combatiam a Igreja hierárquica de Papas, Cardeais e Bispos, no meio de luxos e vaidades. O próprio São Boaventura, Geral da Ordem Franciscana e grande teólogo da Igreja, acabou por condená-los, afastando-os da Ordem. No célebre livro “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, o leitor pode descobrir, no enredo, este mundo dos séculos XI-XIII. Os frades pregavam a era do Espírito Santo contra a era do Antigo Testamento e do Novo Testamento. Da verdadeira Igreja, salvava-se apenas Francisco de Assis e os seus seguidores mais radicais. Esta pregação entrou na espiritualidade do povo, ao longo dos anos, e foi rejeitada pelas autoridades da Igreja e dos responsáveis da Ordem Franciscana. Os “terceiros franciscanos” (leigo casados, que seguiam o espírito de Francisco de Assis), espalharam pela Itália, França, Espanha e Portugal esta doutrina. Santa Isabel, rainha de Portugal, parece que partilhava esta doutrina, também como “terceira franciscana”. As “condenações” da Hierarquia da Igreja acabou com esta doutrina, mas fora levada às ilhas dos Açores pelos franciscanos, onde não chegavam os correios das condenações. Assim nasceram os Impérios do Espírito Santo com o aparecimento duma “capela” ao lado das grandes Igrejas, onde se colocava e se coloca a coroa do Espírito Santo, encimada pela pomba e pela Cruz. O povo açoreano bebeu profundamente esta espiritualidade e, por vezes, transformava a Igreja Católica nos Impérios do Espírito Santo. Surgiram festas religiosas e populares, doutrinas e catequeses, paralelas às da Igreja. Só quem é açoreano é capaz de entender estas “duas” Igrejas, duas culturas, dois sentimentos numa só Igreja, cultura e sentimento. Sempre que as autoridades eclesiásticas contrariaram as festas do Império do Espírito Santo acabaram por perder. Hoje em dia, tudo está mais calmo, reinando o bom senso pastoral de parte a parte. E é preciso ajuntar que estas festas também subsistem no Portugal continental, duma maneira geral acompanhadas pelo “pão do Espírito Santo” como símbolo da partilha dos dons de Deus – onde houver o Espírito de Deus tem que haver pão para todos. Que o digam Tomar, Alenquer, Leiria, Caranguejeira e todas as festas do Espírito Santo, desde o Minho ao Algarve.

Este assunto põe o problema da realidade da força e poder do Espírito Santo. Há trinta anos a esta parte, os neopentecostais evangélicos repuseram esta doutrina, confrontando-se com católicos e protestantes históricos. São mais de trezentos milhões (ver a obra de Allan Anderson, El pentecostalismo. El cristianismo carismático mundial, Ed. Akal, Madrid 2007). Dizem, inclusivamente, que entre eles e os carismáticos católicos não há qualquer diferença. Quem é que está na verdade?

A verdade é exposta de maneira clara em S. Paulo, na 1ª aos Coríntios 12, 4-13: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversidade de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum. A um é dada, pela acção do Espírito, uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, no único Espírito; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas. Tudo isto, porém, o realiza o único e o mesmo Espírito, distribuindo a cada um, conforme lhe apraz. (…) De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos ou livres, e todos bebemos de um só Espírito.”

A variedade de dons e carismas, como se vê, é uma riqueza espiritual desde que seja para formar um só corpo. São Paulo pensa, ao mesmo tempo, no corpo de Cristo e no corpo da Igreja a viver da força do Espírito. Não existe um sem o outro. É com este critério que devemos entender as diferenças entre carismáticos católicos e pentecostais evangélicos. Mas também aqui, só o Espírito é que pode julgar. Apenas referimos os dizeres de São Paulo sobre os muitos dons ou carismas do Espírito para a formação de um “corpo de Cristo”.

A doutrina de Paulo é mais aprofundada no quarto evangelho ao apresentar cinco vezes a promessa do Espírito (Jo 14, 15-16; 14, 25-26; 15, 26-27; 16, 5-11; 16, 12-15). O Espírito é apresentado como “o outro Paráclito”, “Espírito Santo”; Espírito da Verdade” (14, 16: “e Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito…”, 14, 26: “mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará…”; 15, 26: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, e que Eu vos hei-de enviar da parte do Pai…”; 16, 13-15: “Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a verdade completa…há-de manifestar a minha glória, porque receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer…”).

Como se trata de “promessa” a cumprir, os verbos aparecem no futuro temporal. No entanto, em 14, 17, o tempo verbal é presente: “o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; vós é que o conheceis, porque permanece junto de vós, e está em vós”.

Acontece, então, que as promessas do Espírito, já presentes no Antigo Testamento (Is 11, 1-2; 61, 1; Jr 31, 31-32; Ez 37, 14; Joel 3, 1-2), acontecem na pessoa de Jesus (Mc 1, 10 e paralelos) e na pessoa dos baptizados cristãos em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 19). A narrativa do Pentecostes, em Actos 2, 1-13, é uma espantosa “encenação” da realidade cristã do Espírito Santo, que os cristãos sentem e vivem. O Espírito Santo é a grande Lei – nova Lei – , diante da qual não há nem judeu nem grego, europeu ou africano, homem ou mulher. É uma verdade divina que completa, definitivamente, a teologia e a cristologia com a pneuma-tologia. E é assim que surge a tensão dialéctica entre a Igreja hierárquica e carismática, tanto no passado, a começar com Montano, já nos princípios do século II, como no presente.

Quem nos deve governar é o Império do Espírito que concilia a utopia com a realidade política, económica, democrática do povo de Deus. É o Império do amor e da partilha, da caridade e solidariedade, que resolve todos os problemas da justiça entre trabalhadores e empregadores, mais ricos e mais pobres, crianças e idosos, hierarquia e democracia.

Pe. Joaquim Carreira das Neves, OFM

http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=59703

Ler também: Festa do Divino Espírito Santo em Fall River, Estados Unidos da América

http://www.patriarcado-lisboa.pt/vidacatolica/vcnum11/3%2008%20Hom%20D%20Tomaz-%20%20Fall%20River.doc


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25 11 2008
IBÉRICOS: “Zeitgeist” 2008 « IBÉRICOS

[…] mais visitados ao longo dos últimos doze meses (Dezembro 2007-Dezembro 2008) foram O culto do Espírito Santo com 301 visitas, Bolsas/Becas CEI com 272 e O Estado Ibérico com 195 […]

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